O prognóstico que avançamos na véspera do sexto congresso da RENAMO consumou-se, o general Ossufo Momade foi eleito sucessor de Afonso Dhlakama, na madrugada de quinta-feira (17dejaneiro). Com uma fasquia convincente de pouco mais de 62 porcento dos votos expressos, ao arrecadar 410 votos, deixou para trás o seu principal seguidor, Elias Dhlakama, que conquistou 238 votos, o actual secretário-geral, Manuel Bissopo, com somente sete votos e o emergente Juliano Picardo com cinco votos, sendo de não considerar a candidatura cosmética de Hermínio Morais, pois, renunciou em apoio a Momade.

De coordenador interino, eleito por unanimidade pela Comissão Política, após a morte de Afonso Dhlakama em Maio de 2018, e sua recolha para o outrora reduto de Dhlakama nas matas da Gorongosa, em Junho, meio passo estava dado para garantir legitimidade na sucessão da liderança renamista.

Também, em abono da verdade, que se diga que ao lado dos outros dois candidatos, que vinham sendo badalados, sem equacionar os dois últimos “pára-quedistas”, Ossufo Momade mostrou-se com perfil mas consentâneo para a sucessão de Dhlakama, partindo do facto de que militarmente ostenta a patente superior imediatamente a seguir a do finado, a tenente-general, além da sua longa experiência politica. Aliás, antes de ingressar na RENAMO em 1978, chegou a ser comissário militar e político na FRELIMO. Seguidamente, nas várias frentes de combate abertas pela RENAMO, entre 1979 e 1984, Ossufo Momade comandou os guerrilheiros que levaram a guerra civil à província de Nampula em 1982, ascendendo na estrutura militar até a patente de tenente-general.

Apesar da sua relevância militar, após o Acordo de Paz de Roma, em 1992, ao contrário das restantes chefias militares renamistas que passaram a integrar as FADM, Momade manteve a sua lealdade ”canina” a Dhlakama e ao partido, tornou-se político, tendo integrado a Comissão Política do partido Renamo e depois eleito parlamentar como cabeça de lista por Nampula.
Entre 2006 assumiu o cargo de Secretário-Geral, no período em que foram reactivadas as posições dos antigos guerrilheiros, até tornar-se chefe do Departamento de Defesa em 2012, no momento que antecedeu a eclosão de outro conflito militar com as forças governamentais.
Após as Eleições Gerais de 2014, depois dos atentados à Afonso Dhlakama e particularmente do assalto a residência onde o seu presidente se encontrava na cidade da Beira, em 2015, defendeu a posse de armas pelos homens armados que o partido Renamo ainda tem ao abrigo do Acordo Geral de Paz.
Então, este todo perfil foi imbatível pelos outros candidatos, vincando o quase direito “natural” de suceder a Afonso Dhakama, mesmo que longe do seu carisma.

Agora, olhando para o seu carácter e papel para a finalização do processo de paz, sabiamente conectado por Afonso Dhlakama, directamente com o PR, Filipe Nyusi, em fase muito avançada, o general Ossufo Momade quando assumiu interinamente a liderança da Renamo “jurou” que levaria a bom porto o dossier e os acordos firmados pelo seu finado líder.

Todavia, já com a “faca e o queijo” para a tomada de decisões, esperamos que as palavras sejam de facto traduzidas em actos e acções concretas. Porém, este general, já na reserva, tem deixado claro, que caso a Governo liderado pelo partido Frelimo, queira deturpar o espírito e a letra dos acordos firmados pelo falecido líder, vão resistir de todos meios possíveis, pois, o belicismo está no ADN deste novo líder renamista. Basta recordar que após as Eleições Gerais de 2014, depois dos atentados à Afonso Dhlakama e particularmente do assalto a residência onde o seu presidente se encontrava na cidade da Beira, em 2015, Ossufo defendeu a posse de armas pelos homens armados, dizendo: “O presidente Chissano durante o seu mandato não as solicitou? Guebuza cessou as funções em 2015 e não as recolheu. Porquê só o presidente Nyusi tem essa ousadia?”.

Contudo, Momade conhece profundamente o processo de paz, mormente o processo de desmobilização, desarmamento e reintegração, que constitui o grande empecilho para finalizar-se o processo de paz efectiva, pelo que do lado das autoridades governamentais e das hostes do partido Frelimo, como força política que conduz a vida do Estado moçanbicano deve haver serenidade e cumprimento do acordado.

Por outro lado, existe um pormenor de grande significância com a eleição de Ussufo Momade, o incómodo que pode significar para o partido Frelimo, já nas eleições gerais que se avizinham, sobretudo no alargamento da base política e eleitoral da Renamo, no eixo norte-sul do pais, cujo grupo étnico dominante é dos macuas e parte considerável professante da religião muçulmana, nomeadamente as províncias de Nampula, Niassa, Cabo Delgado e Zambézia.

A pergunta que não espera é: Porquê incómodo?
A Renamo, ainda com Dhlakama vivo, percebeu que perdera a vitalidade política que ostentava no centro do país, incluindo na província de Sofala seu bastião, tendo ensaiado um estabelecimento no norte do pais, mormente em Nampula, o que mostrou-se viável. A vitória nas intercalares no município de Nampula e sua revalidação nas eleições autárquicas do ano passado vieram confirmar isso e a sua popularidade em outras províncias nortenhas, incluindo na Zambézia.
A escolha de Ussufo Momade não podia ser mais oportuna, ele é macua, natural de Nampula, concretamente da Ilha de Moçambique e professante da religião muçulmana. Conhece profundamente esta província que constitui o maior círculo eleitoral do país, que chegou a controlar militarmente no tempo do conflito militar dos 16 anos.

Tudo indica que A Renamo, na sua reorganização política vai instalar todas as suas baterias políticas e estratégias para uma mobilização a partir do norte onde, de facto, reside a maior parte da população moçambicana e, por tabela, o maior eleitorado, capitalizando a origem étnica e o credo religioso do seu actual líder e virtual candidato a Presidente da República, para a sedução das massas para a causa renamista de acesso ao poder no país.
Pelo que, vai ser interessante a disputa nas eleições gerais, talvez mais nas legislativas e para as assembleias provinciais, mas poderá haver eventual abalo nas presidenciais, se a imagem da Frelimo e do próprio Presidente Nyusi, não se reverterem do escândalo das dívidas ocultas e dos ataques intermináveis em Cabo Delgado, exactamente no norte do país.
Que a Frelimo se acautele e o espírito da paz bafeje o novo líder da Renamo!

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