Ficou tudo na mesma, talvez pior do que nunca. A Renamo está cada vez mais longe de uma adrenalina moderada, aquela que podia ajudar a transformar o movimento guerrilheiro num partido político, de facto. Esta é a primeira conclusão natural a que se deve chegar, lendo o perfil do guerrilheiro nato indicado para suceder a Afonso Dhlakama, General Ossufo Momade.

Os pesados fardos que a Renamo carrega ainda sem destino garantido, os guerrilheiros nas matas, aos milhares, não davam outra margem ao movimento, para se libertar de uma liderança militarizada, favorecendo o florescimento da ala moderada, que facilmente se adapta ao legalismo. De entre outros, Ossufo Momade é quem está em melhores condições de garantir a manutenção de uma Renamo guerrilheira, facilmente de activar, sempre que o desejar, como foi provando com o tempo.

Os moderados, que se conformam com o ordenamento jurídico da República de Moçambique, a urbanidade, que aguentem por tempo que ninguém pode prever. Aliás, sublinhe-se, a Renamo não está necessariamente dependente de si mesma, mas sim dos fortes interesses Ocidentais, que com a importância geoestratégica de Moçambique, que passa pelo seu Canal privilegiado e os recursos que agora agitam o mundo inteiro, em momento algum vão admitir que seja erradicada do país, uma importante força militar que force, sempre que acharem, o barco a seguir em direcção ao porto de conveniência. Para isso não há limitação no investimento a realizar. Que se lixem prioridades de natureza humanitária, para atender aos milhões que no início de cada dia não têm o que comer.

Sobre a abundância dos presidenciáveis no Congresso, fica o aviso de que pode ter fragilizado os que quando morreu Afonso Dhlakama apostaram no Ossufo Momade para dirigir interinamente a Renamo, pois embora essa abundância possa transmitir a imagem de um processo amplamente democrático, por via de participação, também deixa a nódoa de que os referidos órgãos não têm poder suficiente de endossar ou galvanizar os restantes membros do partido em torno do seu líder, não interessa os discursos também abundantes, conciliadores, para que o general não cace às bruxas, numa clara referência àqueles que apoiaram outros candidatos, a exemplo de Elias Dhlakama.

À chamada ala parlamentar de Maputo, onde militam Ivone Soares, António Muchanga e companhia, outra alternativa não resta, que não seja conformarem-se com a decisão final do Congresso, que sempre esteve previsível, de garantir uma liderança guerrilheira. O voto desta ala foi todo ele para Elias Dhlakama, numa clara intenção de por via do general perpetuar os privilégios que confundiam o que se chama de partido político num clube quase familiar. Ossufo Momade já é Presidente com poderes suficientes para tomar decisões e dirigir o partido, onde já existe uma estrutura, no caso o órgão parlamentar, montado numa outra época. Nessa época obedecia a um determinado comando e hoje só tem que se adaptar à nova situação e à nova realidade, ditada pela morte inesperada e prematura de Afonso Dhlakama.

A bancada parlamentar da Renamo pode fazer tudo menos entrar numa confrontação com o novo Presidente do partido, que por sinal é igualmente parlamentar pela mesma formação política, tendo sido forçado a suspender o mandato por imposição de incompatibilidades.

Ao General Elias Dhlakama, nada mais se pode recomendar, que não seja refazer a sua estratégia de vida. Abandou as Forças Armadas de Defesa de Moçambique, onde pediu aposentação (por ambição desmedida), não conseguiu lugar na direcção da Renamo, vendo-se contrariado nos seus apetites. Não se conheceu antes qualquer militância de Elias Dhlakama que justificasse lugar na direcção da Renamo.

Entretanto, o mérito do Congresso da Renamo foi ter provado que tem ideias. O que se pede agora é que a ser genuíno o discurso de futuro líder do país, deve abandonar situações como esta, em que realizou o Congresso, em que tudo começa e acaba na serra de Gorongosa. Não pode continuar a confundir-se com um movimento clandestino. Deste pesadelo deve libertar-se já, e passar para os principais centros do país, onde se tomam decisões e funciona o poder político. Ficou a ideia de haver alguma organização na Renamo, o que conforta, até certo ponto, os apoiantes e militantes do partido, ver uma formação política que se organiza, toma decisões e avança para frente. Ganha igualmente a nossa democracia.

Cheque em branco

Não pode haver a menor dívida sobre o nível de inserção da Renamo no país. Não se pode fazer vista grossa a este facto. Viu-se o posicionamento do partido nas últimas eleições autárquicas. Isto aconteceu numa altura em que a Frelimo está a enfrentar desafios muito sérios e claramente fragilizada. A Frelimo deve preparar-se e assumir que já não vai às eleições nas condições de chegar a carimbar a vitória. Vai às eleições em condições de uma luta renhida, onde qualquer resultado é possível.

Por outro lado, o General Ossufo Momade foi Secretário-geral da Renamo, e enquanto assumiu este cargo, os resultados eleitorais da Renamo em momento algum foram dos melhores que o partido alguma vez teve. Ainda estamos com extremas dificuldades de ver a obra de Ossufo Momade como mobilizador. Poder-se-á dizer que não fez mais porque Dhlakama o ofuscava. De hoje em diante Ossufo Momade é colocado à prova, na sua visibilidade. Não sendo, por enquanto, uma figura visível, está desafiada igualmente a capacidade da Renamo de fazer a figura de Ossufo Momade. Abano a favor de Ossufo Momade, em detrimento da Frelimo, o facto de muitos descontentes do partido no poder, embora sem amores pela Renamo, tenderem a direccionar o seu voto à perdiz. Os chamados apoiantes circunstanciais da Renamo, para dar um sinal à Frelimo.

O partido no poder é, por consequência, igualmente desafiado a refazer a sua estratégia para onde vai direccionar a sua acção, aproveitando a sua maior inserção pelo país inteiro, o que coloca à prova a máquina partidária. Se formos apenas pela via de figura, Ossufo Momade tem muito a provar, como presidenciável do país.

 

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