Se até ao final de Dezembro último, o mau tempo associado à época chuvosa, que se regista no país entre Outubro e Março, já havia causado a morte a 15 pessoas e destruição de duas mil casas, na véspera do fecho do primeiro mês do ano, a morte atingia a 36 pessoas e a calamidade, já em alerta laranja, afectava a mais de 14 mil pessoas.

Depois de arrasar a província da Zambézia, onde se registou o maior número de óbitos, e outras regiões do norte do país, no arranque da terceira semana deste Janeiro, a tempestade tomou de assalto a província de Sofala, com chuvas e ventos fortes a fazer das suas na Beira e Dondo.

Estas duas cidades despertaram na terça-feira (22 de Janeiro), debaixo de inundações, com cenários dramático com a água da chuva a transbordar pelas ruas e casas. Pessoas tentando desafiar as águas que transformaram as ruas em autênticos rios…  e árvores tombaram ao não resistirem à força dos ventos, estando afectadas mais de 400 famílias.

Só para ter uma ideia, esta tempestade tropical denominada “Desmond” e que afecta as províncias da Zambézia e Sofala, nesta última atingiu os distritos de Marromeu, Cheringoma, Caia, Muanza, Dondo, Búzi, Nhamatanda, Marínguè, Gorongosa e a cidade da Beira. A ponte que dá acesso a sede do Posto Administrativo de Mafambisse encontra-se submersa, e as vias do interior do Distrito estão intransitáveis 230 pessoas estavam afectadas e 40 casas de material precário destruídas totalmente. No Distrito de Muanza 14 casas de construção precária foram destruídas totalmente afectando 14 famílias.

No Distrito de Búzi, foram afectadas as vias de acesso designadamente: as estradas que ligam a localidade de Nhamichindo à Gruja, Estaquinha à Bândua (na zona de Bengaja), Nharongue à Nova Sofala (na zona de Matafuna) encontram-se intransitáveis.

E, o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC) através do Concelho Técnico de Gestão de Calamidades, estima que o mau tempo que se alastrará até Março, numa mistura de chuvas fortes, cheias, seca e ciclones, poderá afectar mais de um milhão e setecentas mil pessoas em todo o país.

Vislumbra-se um cenário desastroso, porém, as calamidades são cíclicas no país, a época chuvosa – de Outubro de um ano à Março de outro ano – sempre registou-se em Moçambique, mas as estratégias e acções de prevenção e mitigação ainda estão aquém do desejável para mitigar o impacto dos desastres, que por vezes tratando-se de fenómenos naturais e atmosféricos, são de dimensão é imprevisível, mas nem por isso!

As autoridades governamentais tem procurado investir na prevenção e prontidão reactiva, mas o que e feito mostra-se ainda pouco. Somente nos finais de Dezembro o Governo activou o ”alerta laranja” para se organizar a assistência às vítimas de inundações durante o pico da época chuvosa que já estava mesmo ao curvar a esquina. Claro que mesmo assim, alguma assistência foi prestada ainda em Novembro e Dezembro, muito graças a ajuda humanitária internacional devido à insegurança alimentar que já afectava a mais de 300 mil pessoas, se prevendo a canalização de ajuda, deste Janeiro a Abril, para cerca de 420 mil pessoas.

As autoridades moçambicanas que contracenam na gestão das calamidades prevê várias intervenções, cujo valor está estimado em cerca de 1,1 bilião de meticais, no entanto, o Governo somente aprovou um orçamento de 206 milhões de meticais, esperando a boa vontade dos doadores internacionais para efectivar seu plano de contenção do impacto das calamidades que vão ceifando vidas e destruindo infraestruturas além de perdas de bens da população, votando-as à miséria.

O Governo necessita de investir mais na prevenção, não somente na informação e educação das populações, mas sobretudo na construção de infraestruturas mais resilientes, particularmente para escolas, unidades sanitárias e pontecas, já destruídas aos montes por este mau tempo que ainda não atingiu o seu ponto mais alto, visto tratar-se de uma tempestade tropical (ainda) moderada.

Nas cidades, a exemplo do que assistimos na Beira e Dondo, as inundações são causadas por falta de sistemas de drenagens ou da sua manutenção eficaz, como acontece mesmo na cidade capital do país.

Por outro lado, que se diga, em abono da verdade, as populações que vivem em zonas de riscos são teimosas, preferindo uma surdez voluntária em tempos e ocasiões de apelos e aconselhamentos. Num caso registado na Zambézia, mesmo com tempo de ventos fortes, um cidadão trepa uma palmeira para a extracção de sura (bebida tradicional). O vento derrubou-o e a queda foi fatal.

O INGC tem levado a cabo campanhas de informação e sensibilização sobre o abandono dos locais de risco perante a iminência de calamidades, mas famílias e pessoas há, que simplesmente menosprezam os alertas.

Por exemplo, nas províncias ainda não afectadas, sobretudo na zona centro, os governos locais, em parelha com agentes do INGC, estão empenhados na sensibilização da população para a sua retirada, o mais depressa possível, das zonas consideradas de riscos às inundações e cheias ao longo das margens dos rios Zambeze e Chire, perante a subida dos caudais destes rios. Contudo, podemos receber notícias de resistências e, por tabela, as respectivas consequências trágicas.

Enfim, as autoridades devem reforçar a sua intervenção para acomodar as populações deslocadas e prover assistência, pois, algumas pessoas reclamam passar horas a fio sem ter uma refeição, sem falar de material de higiene, nos centros de acomodação.

Falhas as intervenções preventivas profundas, as autoridades devem reforçar a logística de acomodação, recorrendo a tendas e outras infraestruturas, visto que parte das pessoas acomodadas estão em escolas enquanto o início do ano lectivo bate a porta.

Segundo apuramos, Moçambique está usando o novo sistema de alerta de ciclones tropicais, criado com objectivo de reduzir a vulnerabilidade das comunidades localizadas em zonas propensas ao fenómeno e que classifica os ciclones tropicais em cinco (5) categorias, sendo que a actual tempestade que assola o país é Tempestade Tropical Moderada (cujos ventos fortes variam de 90 a 124 km/hora).

Segundo o escalonamento, é a menos severa, visto seguirem Tempestade Tropical Severa (ventos fortes: 125 a 165 km/hora); Ciclone Tropical (ventos fortes: 166 a 233 km/hora);Ciclone Tropical Intenso (ventos fortes: 234 a 299 km/hora);e, Ciclone Tropical Muito Intenso (ventos fortes: 300 ou mais km/hora).

Esperamos sinceramente que não transitemos para os escalões subsequentes, pois, se nesta fase temos dificuldades, sobretudo logísticas e financeiras, o caos pode tomar conta do país e grande número de famílias ficará afectada, com mortes, feridos e danos materiais a multiplicarem-se.

Por Osvaldo Tembe

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