Na história da humanidade não se conhece reforma económica alguma que não tenha gerado insatisfação popular, porque as medidas correctivas a adoptar e a implementar implicam 
sempre um grande aperto de cinto, com efeitos severos, sobretudo para o respectivo Povo, 
que um dia António Oliveira Salazar, em vida, apelidou de “massa bruta na sociedade”.  

É o que está a acontecer no vizinho Zimbábue, onde a população viu abortado o sonho de
futuro de prosperidade, sem o Presidente Robert Mugabe, em virtude dos efeitos severos das
reformas ensaiadas pelo Presidente Emmerson Mnangagwa, que até se viu obrigado a
interromper participação no último Fórum Económico Mundial de Davos, na Suíça, para ir
lidar com a violência que matava no seu país, em consequência de manifestações populares
contra o aumento do preço de combustível, em triplo.

O primeiro passo a dar é convencer a população de que a reforma económica em curso visa
resolver os problemas criados ao longo de décadas, sendo que dificilmente se encontraria
outra terapia. O próprio ambiente eleitoral que elegeu Emmerson Mnangagwa não ajudou
para mobilizar os zimbabueanos para a longa e dolorosa marcha. Enquanto não houver uma
relação de pertença entre as reformas necessárias por parte da população, dificilmente a
reacção violenta a qualquer medida decorrente da reforma se vai evitar.

Não há certeza de que as reformas terão sido precedidas de diálogo inclusivo e profundo, que
pressupõe envolver todos os actores da sociedade. Só o diálogo inclusivo e profundo pode
produzir o sentido de pertença por parte da população, condição indispensável conducente a
uma reforma sem confrontação/violência directa entre o Governo e a Sociedade Civil.

A esperança inicialmente depositada no Presidente Emmerson Mnangagwa diluiu-se, porque
o que hoje está a acontecer está muito longe do que dele se esperava.
Foram mais de 20 anos de um processo contínuo insustentável de má governação por que o
Zimbábue passou, o que gerpou, inevitavelmente consequências económicas graves, que
resvalam para uma instabilidade social. Seria total utopia assumir que isto pode ser resolvido
nos próximos cinco anos!
Há que ter em conta que faz longo tempo que o Zimbábue não paga as suas dívidas ao Fundo
Monetário Internacional e a outros credores. Enquanto o país não paga essas dívidas, não
pode ter créditos para pôr a economia a funcionar. Por outro lado, o processo de reforma
agrária, o principal detonador desta crise toda, teve consequências bastante profundas em
termos da desapropriação de terras.

Nos países onde a terra é facilmente convertível em dinheiro, não se encontra sequer uma
porção de terra ociosa. Ora, quando um governo se apropria dessa terra, cujos títulos estão
com os bancos, e não paga aos bancos, o sistema financeiro entra em colapso total, para além
da produção que foi profundamente afectada. Sabe-se perfeitamente que a economia do
Zimbábue girava em torno do sector da agricultura, que por sua vez dinamizava a indústria.

A produção agrícola, que alimentava a indústria, fez colapsar os dois sectores e o resto da
economia, deixando o país sem moeda própria, sequer. Não se trata de opção alguma. É que
para ter moeda própria o um país tem de ter pelo menos reservas internacionais para cobrir
seis meses de importações. Neste momento o Zimbábue está numa situação económica em
que as suas reservas internacionais para a cobertura das importações não vão para além de
uma semana e meia! Simplesmente gravíssimo! O sistema de saúde do país entrou
igualmente em colapso, a indústria colapsou, a agricultura não tem como se mexer, porque
não há importações a realizar.

Não estamos imunes a esta crise, pois este quadro tem implicações directas especialmente
sobre nós e outros países da região. A nossa privilegiada posição geoestratégica na região
faz-nos depender imensamente de pujança da economia do Zimbábue. Isto significa que se o
Zimbábue estiver economicamente pujante, exporta e Moçambique processa as exportações e
ganha dinheiro. Se a economia do Zimbábue estiver pujante, o país importa e é benéfico para
Moçambique, porque os portos da Beira e de Maputo serão fontes de muitas divisas.
Daqui se chega à triste conclusão de que a situação é tão grave a tal ponto que neste
momento se revela extremamente difícil recomendar saídas para o país de Emmerson
Mnangagwa.

As terras expropriadas pelo Estado sem a devida compensação, uma das formas de o país ir
para os mercados internacionais pedir créditos para financiar a sua economia, tem como
condição a necessidade de compensar os farmeiros que perderam as suas terras. Por enquanto
o país não está em condições para este desafio. Só com um Plano Marchal que não se sabe de
onde virá, porque a desgovernação dos mais de 20 anos gerou igualmente uma situação de
conflito e de hostilidade com os principais países que poderiam neste momento ajudar o
Zimbábue.

A difícil reforma económica do Zimbábue!
Baltazar Montemor

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