Os ataques seguidos de matanças cruéis, incluindo com recurso a decapitações, que desde Outubro de 2017 afectam a Província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, estão a evoluir de forma, a tal ponto que impõem outra abordagem, inclusivamente com alguma complexidade.

Se no início eram simples ataques, assassinatos, destruição de infra-estrutura, com fogo posto à mistura para fazer arder centenas de casas precárias, hoje o quadro é outro, confundindo-se até com desafio e retaliação a intervenções das autoridades, nomeadamente Forças de Defesa e Segurança (FDS).
Cada acção das FDS, neutralização de supostos envolvidos, por via de detenções e abates em confrontos directos ou não, é seguida de ataques ainda mais sofisticados com cheiro à raiva dos insurrectos. Os acontecimentos no terreno mostram que ainda não houve acção governamental que tivesse desencorajado a barbaridade que somos dados a assistir.

Não é por mero acaso que o Chefe do Estado e Comandante em Chefe das Forças de Defesa e Segurança, Filipe Nyusi, efectua visitas-surpresa às posições no terreno. Este tipo de visitas só se faz quando há reconhecimento claro de que estamos em guerra, de facto. São visitas com uma forte dimensão psicológica, mas acima de tudo politicamente muito fortes, para mostrar a seriedade e o compromisso que o Chefe do Estado tem com as FDS no teatro das operações, de modo a continuarem firmes no combate deste tipo de criminalidade, que ainda nem sequer sabemos o que é, qual é a sua génese.

O quadro atingiu e tende a ultrapassar os níveis de barbária, num tipo de violência que nunca pode ser tolerado em qualquer parte do mundo, muito menos pode ser tomado de forma leviana, quer pelo Estado quer pelo resto da Sociedade Civil.

Reiteramos o que dissemos em ocasiões anteriores, quando defendemos que todas as hipóteses devem ser tidas em conta relativamente às motivações dos ataques em Cabo Delgado. Exige-se agora outro nível de aprofundamento da análise. O aprofundamento da análise do fenómeno obriga-nos a ir para além dos simples ataques. Já temos de equacionar a dimensão política, económica, social, incluindo a capacidade de intervenção das próprias FDS.

Ao Estado já se exige um trabalho muito forte e continuado, para tornar as populações mais fortes e unidas, condição para enfrentar com glória e sucesso, a situação prevalecente em Cabo Delgado.
Para já, impõe-se respeitar o sacrifício consentido pelos elementos das FDS no terreno. É de toda justiça reconhecer o trabalho árduo, que as FDS são chamadas a realizar, em circunstâncias bastante difíceis.

Por outro lado, impõe-se também reconhecer que há algo que já nos foge do controlo. Não parece ajudar para a solução do problema, a espécie de campanha de propaganda, incluindo por parte do próprio Comandante Geral da Polícia da República de Moçambique, quando por exemplo se refere, em termos definitivos, a certos supostos envolvidos, que nunca foram julgados, muito menos condenados pelo tribunal, juridicamente falando. É uma espécie de propaganda que nos remete aos tempos dos chamados “bandidos armados”, na guerra dos 16 anos, quando havia pessoas que eram apresentadas como os cabecilhas, sem que a guerra terminasse, entretanto.

Impõe-se que as nossas Forças de Defesa e Segurança se municiem de melhores técnicas, para irem ao âmago da questão e nos trazerem todos os factores que estão a contribuir para a instabilidade em Cabo Delgado.

De contrário vai consolidar-se o cepticismo em relação a todas as declarações acusatórias, pois os ataques continuam, mesmo depois de os tais cabecilhas terem sido neutralizados e alguns até terem morrido.

A situação desafia o Estado a revelar-se um pouco mais sofisticado e mais convincente, porque neste momento já não se sabe se não haverá problemas internos de organização ao nível das Forças de Defesa e Segurança, e questionar se não haverá algo a fazer para que o problema prevalecente em Cabo Delgado possa ser confrontado com base em elementos próprios.

Há a necessidade de se olhar para o problema em todas as dimensões. A título de exemplo, na componente política, o que é que está a acontecer que impede ir-se mais ao fundo do problema.

Provavelmente estejamos em presença de um problema sensível que não pode ser trazido à praça pública de qualquer maneira. Pelo menos o Comandante em Chefe já disse que não podemos estar a dizer tudo na praça pública. Do ponto de vista operativo, ao nível das FDS, seria desejável saber o que é que está a acontecer que impede o conhecimento pleno da realidade dos factos e estancar o mal pela raz. A visita do Comandante em Chefe pode ser o sinal de que ele está a reconhecer algum sinal de abalo das FDS e que é preciso confortá-las, ou pode estar a sentir que elas não estão a ter o devido apoio político.
O que já não se pode duvidar é que o grupo tem claramente um suporte material que chama à atenção do Estado para não mais encarar a situação com certo nível de simplicismo. É insustentável a urgência em apresentar resultados, sob pena de o trabalho das FDS cair no ridículo e em indesejáveis de falsidades. É que pela lógica de todos os resultados que as autoridades já vieram a público revelar, a insurgência já deveria ter parado, por força de ausência de suporte material.
Igualmente não se pode subestimar o facto de situações similares a esta que afecta a Província de Cabo Delgado, propiciarem o fenómeno da corrupção, instalando-se com muita intensidade, interferindo em todos os esforços para a erradicar a guerra.

Notamos com interesse particular, a disponibilidade dos Estados Unidos da América, que acaba de ser expressa, através da sua representação diplomática em Maputo, de apoiar Moçambique nesta luta contra os insurgentes de Cabo Delgado.

Não é de estranhar esta disponibilidade, tomando em linha de conta o interesse sempre presente e permanente, de uma presença forte em Moçambique. São ainda frescos os démarches para transformar o porto de Nacala numa base naval de grande porte dos Estados Unidos. Por outro lado, o Oceano Índico, que banha Moçambique, reveste-se de uma importância indispensável para o comércio internacional e para questões geoestratégicas. O Oceano Índico comunica-se com o Atlântico, que liga América, Europa, África, Ásia e por ai em diante, e o mundo praticamente fica ligado pelos dois grandes oceanos. Logo, os Estados Unidos não podem ficar alheios àquilo que acontece na orla do Oceano Índico, queiramos ou não.

Baltazar Montemor

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