Ainda não secaram as lágrimas que se vão derramando pela morte de Afonso Dhlakama, eis que a família Renamo caminha para colapso, como que a concordar connosco, quando de forma reiterada alertamos sobre o perigo iminente de sobrevivência deste partido político armado e militarizado.

Dissemos que a morte de Afonso Dhlakama desafiava e ainda desafia o maior partido da oposição em Moçambique, a provar a sua capacidade de sobreviver sem ele, porque homem com carisma igual, com capacidade de manter a ordem numa família onde a indisciplina no contexto da nação inteira sempre foi uma constante e recurso conveniente, dificilmente haveria dentro do grupo.

Até homens melhores que Afonso Dhlakama podem abundar no seio da Renamo, mas seria uma miragem encontrar igual, tal como implica procurar um gato preto numa sala escura.

Numa clara afronta aos princípios democráticos, que têm como um dos pressupostos básicos a escolha livre de representantes, o Presidente da Renamo, Ossufo Momade, entendeu pontapear o plasmado nos Estatutos do partido e indicou delegados políticos na província de Sofala.

A reacção não se fez esperar, a esta tentativa de revitalizar os órgãos de base sem o mínimo de transparência, recorrendo-se à ditadura. Com efeito, os militantes da Renamo contestam a indicação dos delegados políticos provinciais e distritais pela direcção máxima do partido e chegaram a boicotar uma reunião dirigida pela Comissão Política, exigindo que os delegados políticos sejam eleitos em conferência, conforme determinam os Estatutos.

Em consequência da discórdia, a Renamo passou a contar com dois delegados políticos, na província de Sofala e na cidade da Beira, um indicado pela direcção máxima e outro eleito democraticamente pelas massas.

Ora, nos Estatutos da Renamo não se acha artigo algum que fale de indicação, pela Comissão Política, de delegados políticos. Fala-se, sim, de podres do Presidente, de indicar ou nomear chefes de Departamento de nível central.

Entretanto, esta discórdia pode ser bem-vinda, na perspectiva de que a Renamo finalmente tem com o quê se ocupar, que não seja estar a pensar em guerra, ocupando-se da gestão dos seus problemas internos, o que é substancialmente positivo para o país. É saudável que emerjam problemas e conflitos democráticos no seio da Renamo. Aliás, a Renamo sempre teve conflitos internos, mas a figura de Afonso Dhlakama funcionou permanentemente como pedra sufocante, que não deixava as coisas extravasaren para o nosso conhecimento. Os conflitos não são de todo maus, pois são bons para gerar desenvolvimento. Neste enredo, o desenvolvimento da Renamo estará sempre concertado na evolução do próprio partido, o que é de saudar.

É uma evolução democrática inquestionável, ouvir militantes da Renamo, a nível da base, invocando respeito pelo Estatutos, quando antes nem se podia ouvir falar desta legislação interna do partido, porque imperava a ordem do líder. O clima da Beira chama à atenção para a necessidade de a Renamo perceber que já está a ser desfiada a ser um indivíduo mais político do que simples pensador de guerra.

Os acontecimentos da Beira têm um grande potencial de virem a destruir a Renamo, a quem se impõe tomar a situação a peito e com muita seriedade. Se era prática Afonso Dhlakama indicar delegados em violação dos Estatutos, sem que o hábito fosse alguma vez questionado, face a todo um sentimento de gratidão, pela liderança de Afonso Dhlakama, hoje as coisas mudaram. Já no recente Congresso houve uma chuva de candidatos a Presidente, num processo eleitoral mais ou menos renhido, o que mostra que há dinâmicas internas dentro da Renamo, que devem ser consideradas. A única forma para isso é a abertura do sistema, em que todos os membros têm direitos e obrigações.

O enredo da Beira não minimiza a Renamo, mas sim oferece uma oportunidade nobre para um debate franco e aberto sobre os métodos de governação interna dentro do próprio partido.

Durante longo tempo foi sendo norma não reduzida ao escrito, não falar destes processos (era tabu), mas hoje os tempos mudaram e ao querer imitar Afonso Dhlakama nos métodos antidemocráticos, Ossufo Momade tem o seu poder desafiado.

Por outro lado, o Congresso de Gorongosa alerta que as cinco candidaturas a Presidente da Renamo traduzem igual número de tendências antagónicas dentro do partido. Este facto traduz ausência de consenso, o que entretanto não deve significar não respeito ao facto de Ossufo Momade ter sido eleito. São suficientemente elucidativos os discursos dos candidatos derrotados, autênticos avisos à navegação, no sentido de que Ossufo Momade ganhou, mas não pode fazer rodear-se dos seus.

O país está a atravessar uma fase crucial, em virtude das Eleições Gerais de 15 de Outubro. Neste contexto, a liderança da Renamo, em concreto o seu Presidente, deve garantir que os candidatos do partido a Governador de Província a serem a eleitos, sejam indivíduos que lhe são 110 por cento leais. Logo, em Ossufo Momade mora o interesse indisfarçável de que quem está em lugar cimeiro a nível das bases de Sofala, sobretudo da Província, é alguém da sua total confiança. Certamente que este imperativo terá já sido entendido pelas diferentes correntes internas da Renamo, razão dos acontecimentos da Beira, cuja província (seu bastião) o partido tem certeza de vitória nas províncias de 15 de Outubro.

Não deixaremos de sublinhar a gravidade extrema da situação, pois não estamos apenas perante simples contestação de métodos, mas sim estamos em presença de autêntico desafio do poder de Ossufo Momade. É que os dissidentes contestam, mas ao mesmo tempo dão luz verde à liderança para avançar com o seu processo antidemocrático, que eles também avançam com o seu processo, seguindo os Estatutos.

Dois processos paralelos desta natureza num partido político representam algo extremamente grave, e a Renamo é desafiada a encontrar uma forma de abordar o assunto sem que haja cadáveres nem prisioneiros. Recomenda-se uma abordagem que se guie pelos princípios democráticos, para a própria Renamo mostrar e convencer o eleitorado moçambicano de que é verdadeiramente uma força democrática.

Baltazar Montemor

 

 

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