O mundo inteiro converge na Venezuela, onde uma vez chegados (os actores), os grandes interesses se dividem, formando dois grandes blocos antagónicos. De um lado o grupo mais forte e com indisfarçável nervosismo exacerbado, de impaciência face à persistência do regime do dia, e do outro o bloco discreto, que tenta estabelecer o equilíbrio.

O doce mel que atrai o mundo à Venezuela é o seu abundante petróleo que faz do país de Hugo Chavez um dos maiores produtores e exportadores mundiais deste recurso gerador de conflitos de dimensão mundial. Em consequência, qualquer acontecimento na Venezuela mexe com os mercados mundiais de petróleo, que estão expressamente proibidos de ficarem indiferentes.

São raros os países produtores e exportadores de petróleo que controlam o respectivo mercado ao nível do mundo. Tradicionalmente este mercado é controlado fundamentalmente pelos Estados Unidos da América (EUA), o que se justifica pela apetência norte-americana sempre presente e permanente pelas questões energéticas. Claramente o petróleo sempre foi o produto que gerou esta apetência.

Será por isso que os EUA têm um interesse inusitado sobre os desenvolvimentos na Venezuela? Eis a questão. Estranho seria indiferença dos EUA sobre o dia-a-dia da Venezuela.

A crise por que a Venezuela passa hoje tem as suas origens em parte numa sociedade muito desigual que o país sempre foi, a despeito do abundante recurso petróleo, que poderia ajudar a melhorar as condições de vida da população. O país passou por grandes desequilíbrios, em termos económicos e sociais. O Governo socialista que emergiu em 1999 ensaiou algumas políticas económicas, com a boa intenção de alterar o quadro. Todavia, essas políticas acabaram por desestruturar a economia, fundamentalmente porque se basearam em subsídios que prejudicaram os grandes produtores internos de bens essenciais de consumo.

Por outro lado, sabe-se que os governos socialistas têm-se mantido firmes no poder, sob forte contestação da oposição. Depois da morte de Hugo Chavez foram realizadas eleições, em Maio de 2018, que proclamaram Nicolás Maduro como vencedor, por uma margem suspeita ínfima, de 1.6 pontos percentuais. Sem surpresa, a oposição declarou que as eleições não foram livres, justas nem transparentes, ou seja, não reflectem a vontade dos eleitores.

Antes já havia uma Assembleia Nacional, sendo que em paralelo Nicolás Maduro havia criado uma Assembleia Constituinte de que pouco se sabe. O que se sabia é que estávamos perante uma Venezuela com duas legislaturas. A 23 de Janeiro foi o apogeu da crise, quando o Presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, se autoproclamou Presidente da República. Não se fez esperar o apoio de muitos países como da Europa, incluindo os EUA. A situação forçou a um Grupo de Contacto, envolvendo países da Europa e da América Latina.

Tal como todos os restantes países das Américas, a Venezuela tem o mesmo valor estratégico para os EUA como têm os países do leste da Europa para a Rússia. A Venezuela tem uma característica adicional. Para além de constituir o “quintal americano”, a Venezuela está inundada do tal petróleo. Os EUA entendem que devem ser eles a ditar o modus vi vendi dos venezuelanos, desde a política social à política económica, porque a Venezuela está inserida na área de influência de Washington. Este desejo de respeito pelos padrões norte-americanos não foi satisfeito, desde os tempos de Hugo Chavez, o que justificou as duas tentativas de golpe de estado por ele sofrido.

A nacionalização da maior indústria petrolífera da Venezuela não agradou aos norte-americanos. A morte de Hugo Chavez gerou alguma expectativa, entretanto frustrada por Nicolás Maduro, ao não conseguir evitar seguir à risca as políticas do se antecessor. Não só não foi modesto, como inclusivamente foi mais incisivo em relação às políticas sociais, razão da presente crise.

A crise gerada pela híper inflação que vem desde os tempos de Hugo Chavez atingiu o auge em 2017, com a vitória da oposição no Parlamento, detentor de importância extraordinária. Surpreendido com a situação, Nicolás Maduro violou a Constituição em 2016 e criou a Assembleia Constituinte, à margem de um referendo nacional que se impunha.

A recente e turbulência reeleição de Nicolás Maduro para um mandato de mais sete anos, neste 2019, com elevadíssimos níveis de abstenção, desencadeou a onda de protestos que abriu espaço para Juan Guaidó se autoproclamar Presidente da Venezuela.

Por outro lado, não se pode perder de vista que quando Hugo Chavez subiu ao poder, em 1999, contava com uma nata de líderes também socialistas em toda a região, comungando a mesma ideologia. A situação prevaleceu até sensivelmente 2015, quando pela primeira vez a região assistiu à queda dos governos de esquerda, a partir da Argentina. Deixou de existir o suporte regional, sobrando apenas a Bolívia.

É neste contexto que as novas lideranças de direita, que não concordam com a esquerda, criaram o chamado “Grupo de Lima”, liderado pelos EUA, através da Organização dos Estados Americanos, similar da União Africana. Do outro lado temos o Grupo de Contacto, que não concorda com a remoção à força de Nicolás Maduro, diferentemente do que defendem a Argentina e o Brasil, a partir do grupo da Organização dos Estados Americanos. No Grupo de Contacto, o México e o Uruguaio nunca poderiam estar ao lado dos EUA, optando pela convocação de novas eleições.

Os próximos dias serão o melhor juiz, mas pelo sim pelo não, o doce mel da Venezuela é bastante atractivo. O que é um facto é que 1.300.000% de inflação que atinge o país não se conhece algo semelhante. A situação de caos pode ser gerado também do exterior, porque não é confortável para o poderoso EUA continuar a gastar 45 dias para trazer petróleo da Arábia Saudita e de todo o Médio Oriente, quando pela Venezuela são apenas cinco dias.

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