A África do Sul está numa situação em que de certeza absoluta o seu Presidente, Cyril Ramaphosa não gostaria de estar. Se Ramaphosa pudesse até era capaz de pedir licença ilimitada, até que o caso Manuel Chang tenha tido o seu desfecho, sobre para onde extradita-lo.  

É que a África do Sul tem agora a missão delicadíssima de agradar a gregos e troianos, entre devolver Manuel Chang a Moçambique, ou extradita-lo para os Estados Unidos da América, conforme a exigência da terra do Tio Sam, que ditou a detenção do deputado e antigo Ministro moçambicano das Finanças, a 29 de Dezembro, no Aeroporto Internacional Oliver Thambo, em Joanesburgo.

Todavia, pelo contexto político que a África do Sul vive, a nível do continente e da região, em particular, não tem muito campo de manobra para satisfazer os Estados Unidos da América, que não seja devolver Manuel Chang para Moçambique, no que é visto como mal menor.

Ao nível político africano, a África do Sul atravessa um deserto que não pode ousar dispensar a água que se apresenta mais próxima, na região e no continente, para preferir a água dos norte-americanos para matar uma sede que não dá mais tempo de vida ao país vizinho, caso não molhe a garanta seca no imediato. Até que a água de Washington chegue à Pretória, a África do Sul já teria morrido de asfixia há bastante tempo.

É de todo interesse, mais político, da África do Sul devolver Manuel Chang a Moçambique em detrimento dos Estados Unidos da América, por uma variada gama de razões. A África do Sul atravessa uma crise de legitimidade no continente africano, essencialmente pelo sinal dado por Pretória, relativamente à morte do antigo Presidente da Líbia, Muamar Kadaf.

Quando da invasão que culminou com a morte de Muamar Kadaf e levou a Líbia ao caos por que hoje passa, a África do Sul estava no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Este sinal foi mal interpretado e mal visto pelos países africanos. Seguiu-se um outro sinal, do mandado de captura contra o Presidente do Sudão, Omar el-Bashir. A África do Sul deteve Omar el-Bashir e despachou-o logo a seguir, para não se queimar ainda mais aos olhos dos líderes africanos, como um país que mais serve aos interesses dos outros em detrimento dos interesses dos africanos. Este historial todo pressiona claramente a África do Sul a não fortificar a ideia de que é um país que serve mais aos interesses dos outros e não está com os africanos.

Por outro lado, a África do Sul tem interesses hegemónicos, no continente africano, cuja materialização precisa do apoio, nem que seja do voto dos países africanos, em determinado tipo de órgãos, a exemplo do Conselho de Segurança das Nações Unidas, entre outros, para onde a África do Sul pretende fazer projectar a sua hegemonia política e até económica.

Caso o continente africano volte a ter a oportunidade de estar no Conselho de Segurança das Nações Unidas, o coração do poder do mundo, que acomoda os cincos países com direito de veto, a África do Sul teria nisso um interesse hegemónico que só pode atingir com o apoio de África. Outro interesse da África do Sul, o mais hegemónico, é no âmbito da diplomacia económica.

É indisfarçável a zanga do país vizinho connosco, por não ter uma boa parte das empresas sul-africanas envolvidas no negócio da exploração do gás do Rovuma. A diplomacia moçambicana não pode fingir que desconhece esta zanga. No dossier Manuel Chang, a diplomacia sul-africana pode inclusivamente invocar a troca de benefícios, no sentido de que se Moçambique tem interesse em ter Manuel Chang de volta, África do Sul também tem interesse em expandir os seus negócios para locais A, B, C, D. A África do Sul nunca vai abandonar o desejo de manter o seu estatuto de potência económica na região.

Por outro lado, apesar do interesse da África do Sul em manter boas relações com os Estados Unidos da América, para continuar a ser vista como um parceiro global de confiança, em termos geoestratégicos, é de todo interesse de Pretória garantir que os interesses de Moçambique no processo Manuel Chang sejam acautelados, o que passa pela devolução do antigo governante moçambicano a Maputo, sacrificando as boas relações com os EUA. O interesse soberano de Moçambique é a recuperação dos activos desviados. Logo, o interesse político da África do Sul passa por favorecer Moçambique.

Por tudo isto e algo mais, a África do Sul sente-se pressionada a não se comprometer tanto com outros países que não seja, no caso em concreto, com Moçambique, porque em matéria de Relações Internacionais e Segurança, o seu vizinho é a sua primeira defesa e a sua primeira ameaça. Logo, é mais preferível estar bem com os seus vizinhos à volta, do que com quem está bem distante, em detrimento de quem está aqui perto.

É um facto que a África do Sul tem leis a cumprir, com clara separação de poderes. A interdependência não tira a independência do juiz actuar em pleno respeito pela legislação. Por sua vez, os políticos não podem impor a sua vontade em função dos interesses soberanos do país, sobre o que a legislação determina, sob pena de serem levados ao tribunal e julgados por violação da lei que eles próprios juraram respeitar e fazer respeitar.

Cyril Ramaphosa está perante uma decisão extremamente difícil de tomar, mas que no fim do dia terá de ser tomada alguma deliberação pelo Governo sul-africano, sendo que qualquer das decisões, ou a extradição de Manuel Chang para os Estados Unidos da América ou a sua devolução a Moçambique, vai criar problemas de impacto dramático para o país vizinho, o que deixa o seu Presidente, Cyril Ramaphosa, encurralado, ou numa saia cada vez mais justa.

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