A visita anunciada do Papa Francisco, para acontecer em Setembro próximo, coincide com um período crucial na agenda dos moçambicanos, pois estaremos a cerca de um mês ou a menos de um mês da realização das Eleições Legislativas, Presidenciais e das Assembleias Provinciais de 15 de Outubro.

Sabe-se que estas Eleições Gerais assumem uma importância particular, e podem ser comparadas às de 1994, em virtude de estas terem sido as primeiras multipartidárias, igualmente as primeiras depois da assinatura do Acordo Geral de Paz para Moçambique, a 4 de Outubro de 1992.

Por um lado tínhamos Joaquim Chissano e a Frelimo desafiados a enfrentarem Afonso Dlhakama e a Renamo, pela primeira vez no pós independência, entre outros candidatos da oposição que abundaram bastante, diga-se de passagem, de menor expressão, por outro o país vivia uma expectativa exacerbada, gerada pelo fim da guerra dos 16 anos, claramente das mais mortíferas e cruéis que a humanidade alguma vez conheceu. Na consciência de muitos eleitores, votar, em 1994, era um imperativo visto como determinante para contribuir para o enterro definitivo do machado da guerra.

As Eleições Gerais de 15 de Outubro que vem, têm a particularidade de pela primeira vez o país eleger, igualmente, os Governadores Provinciais, uma das bandeiras da Renamo, que parte do pressuposto de que tendo colhido, em todos os processos eleitorais anteriores, maior número de votos na maioria das províncias, sem significar que tenha ganho a eleição geral, elegerá maior número de Governadores Provinciais para os próximos cinco anos de governação local inédita na história do país.

Não menos importante, as “dívidas ocultas” desafiam a capacidade da Frelimo de se reinventar em tempo de crise e manter a história de partido ganhador e dirigente. Antevê-se um pleito extremamente delicado e cheio de subtilezas para Frelimo e seu candidato, porque a sua imagem nunca podia ficar imune a este escândalo financeiro de dimensões alguma vez vividas na história do país.

Estas são as primeiras Eleições Gerais que vão decorrer sem Afonso Dhlakama, mais por força da lei da natureza, que de eleição em eleição provou a sua popularidade, sobretudo no meio rural do centro e norte do país, onde sempre amealhou número considerável de votos, sem precisar de investir tanto na campanha eleitoral, comparativamente aos seus mais directos adversários, os candidatos da Frelimo (Joaquim Chissano, Armando Guebuza e Filipe Nyusi).

Ossufo Momade e a Renamo estão desafiados, por sua vez, a fazerem esquecer, entre o eleitorado, a figura de Afonso Dlhakama, o que passa pelo menos, pela manutenção dos resultados sempre conquistados pelo anterior líder, senão mesmo melhora-los.

Claramente do ponto de vista das Eleições Gerais de 15 de Outubro o país está sob tensão, que confere uma importância especial à visita do Papa Francisco, em Setembro, pois servirá para amortecer os ânimos e as eleições ficarão abençoadas por antecipação.

A visita do Papa tem um simbolismo particular. Moçambique é claramente um país heterogéneo, com uma diversidade e um vasto multiculturalismo, sendo que a religião Católica Romana continua a desempenhar um papel de extrema importância, que não pode ser minimizado. Isto acontece em várias frentes, desde as almas que curam, passando pelo processo de educação e formação, apoio social, entre muitas outras frentes, o que confere um papel extraordinário à igreja católica em Moçambique.

Haverá que sublinhar dois factores fundamentais gerados por uma visita papal, a começar pelo impulso inevitável ao turismo. Não sendo sempre que o Papa vai a todos os países, as pessoas que acreditam muito na religião católica, que não são poucas, podem deslocar-se dos países limítrofes para Moçambique, para aproveitarem a oportunidade de estarem muito próximas do Chefe da Igreja católica e sentirem-se abençoadas.

Por outro lado, a visita do Papa coloca Moçambique no mapa internacional como fonte de notícia. Moçambique é muito pouco conhecido no além-fronteiras, e nas poucas referências ao país é para falar das “dívidas ocultas”, da miséria, da pobreza, de um país na desgraça. Ora, se os moçambicanos, como país, souberem explorar bem a vinda do Papa a Moçambique, a ocasião pode ajudar a colocar o nome da Pérola do Índico no além-fronteiras, por melhores motivos e capitalizar a oportunidade nobre que agora se abre.

Aliás, a boa Frelimo ensinou-nos que a “a vitória prepara-se, a vitória organiza-se”. Então, os ganhos iminentes com a vinda do Papa, só virão se Moçambique se organizar. Já foram projectados ganhos em situações similares, a exemplo do mundial de futebol na África do Sul, em que acabamos sendo os grandes perdedores, por culpa da nossa desorganização, falta de sentido de oportunidade capitalizada e de ausência total de agressividade. Os ganhos não caem nunca do céu, os ganhos conseguem-se fazendo. As nossas instituições têm de acordar e saber fazer.

Países, no mundo, não lutam só para serem ricos, mas também para terem prestígio internacional. São pequenas acções que gerem prestígio. Preparar ao detalhe a visita do Papa, relativamente aos ganhos, é um investimento que Moçambique não pode falhar realizar, porque no final do dia o país só sairá a ganhar.

Pelo sim pelo não, as Eleições Gerais de 15 de Setembro, essas serão abençoadas com a vinda do Papa Francisco, em Setembro.

 

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