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Desenvolvimento agrícola: modelo de exploração de recursos

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“Manda o rapaz aonde ele quer ir e verás o passo dele”

POR: Muzamani

Entre as teorias de desenvolvimento mais discutidas durante a renascença na Europa, a teoria de estágios de crescimento enfatiza, que existe uma fase inicial em que o progresso é baseado na agricultura num modelo de exploração de recursos, o que representou e representa a expansão de áreas de cultivo.

Todo o mundo parece ter passado por esta fase, uns mais cedo, outros mais tarde e ainda outros por atravessar este estágio. O modelo foi a força motriz do desenvolvimento agrícola da China no primeiro milênio D.C. com a utilização das terras ao longo da bacia de Yangtzé. Nos séculos 18 e 19, o Ocidente, na procura de expansão das suas fronteiras para a agricultura, acabou nos continentes da América do Sul e da Austrália.Moçambique parece estar nesta fase e parece estagnado nela já há bastante tempo, embora não lhe falte áreas de expansão para a agricultura.

Quando se fala de exploração de recursos, muitas vezes se pensa somente nos recursos naturais. Mas de facto, entre os recursos deve-se dar primazia ao recurso conhecimento, sobretudo o local, que foi adquirido, acumulado e melhorado durante muitas gerações pelos próprios produtores agrícolas naquele local.  Mesmo que não esteja incorporado nos manuais científicos, o conhecimento dos produtores locais não deixa de ser conhecimento que deve ser entendido, melhorado, usado e incorporado no conhecimento universal. Ademais, entre todos os recursos conhecidos, o conhecimento é o único que se multiplica com o seu uso, e passa de geração em geração sempre melhorado.

Os recursos naturais tendem a esgotar-se com o uso e a sua qualidade e validade tendem a deteriorar-se entre gerações. Ignorar o conhecimento dos produtores agrários locais, e preferir exclusivamente o conhecimento “importado” é correr atrás de prejuízo, pois os produtores resistirão a esse conhecimento importado por ser alheio, e por isso, estar associado ao risco.

Por exemplo, enquanto a maioria dos produtores agrícolas Moçambicanos vêm a agricultura como um sistema, o conhecimento trazido pela maioria dos manuais vê a agricultura compartimentada. Qualquer recomendação oriunda dos manuais, que se faça para supostamente melhorar uma das componentes do sistema, sem fazer referencia ao sistema como um todo, tem o perigo de afectar negativamente o sistema. Por isso arriscada para o produtor. Mas no fim de contas nem o sistema está errado, nem a componente do sistema está errada.

Na visão do produtor pode faltar o detalhe da especialidade e nos manuais o detalhe pode “morar” isolado fora do sistema. A partilha de cada uma dessas visões, enriquece, e a ignorância ou exclusão de uma delas, empobrece. É necessária a habilidade de ver e entender a floresta como um todo e ao mesmo tempo ver e entender cada árvore na floresta.A fonte mais rica dos recursos naturais está na biodiversidade local onde se podem encontrar espécies vegetais e animais locais com importância fundamental na alimentação, industrialização, medicina, produção de energia, etc.

O facto de Moçambique ter sido dominado durante muitos anos por culturas de outros quadrantes do mundo forçou a que os produtores do País tivessem que adaptar sistemas e tecnologias agrícolas importadas, negligenciando o potencial local. Não é por acaso que a Mafurreira, o canhoeiro, a Massala, o embondeiro, a Maphilwa, Macuacua, Quiabo, etc. não figuram com proeminência nos manuais das nossas escolas. Essas plantas da nossa flora são vistas simplesmente como selvagens, ou até infestantes. Se for preciso pode se destruir estas plantas para dar lugar ao trigo, arroz ou batata.

Esta “cegueira” cientifica já causou muitos prejuízos à base da biodiversidade e fonte agrícola do País.  Plantas que serviram como alimentação para a população durante muitos anos foram exterminadas por herbicidas por serem consideradas infestantes as culturas trazidas de outros locais.

A aplicação de agroquímicos desenvolvidos em outras partes do mundo sem a sua correcta adaptação às condições locais já se mostraram nefastas em alguns casos, como na salinização rápida dos solos, tornando-os menos aproveitáveis para a agricultura. Na década 70 assistiu-se nalguns locais do País que a resposta ao nitrogênio a certos cultivares de arroz recém-importadas era marginal quando comparada com variedades já adaptadas. Em alguns casos se constatou que doses de nitrogênio recomendadas para certos lugares de outros quadrantes, no Vale do Limpopo e na Zambézia resultaram na maior produção de palha do que de grão.

Num Pais vizinho de Moçambique conta-se a historia de um projecto de apoio aos camponeses que exterminou uma variedade local de feijão que os camponeses usavam mais a folha para a alimentação do que o grão. O projecto em referência assumiu que os rendimentos do grão deveriam aumentar (porque a folha não era considerada alimento no projecto) e introduziu tecnologias de fertilizantes que de facto aumentaram a quantidade de grão produzida à custa de redução da folha. Desapareceu uma base alimentar local.

Estes exemplos e outros, não narrados, que aconteceram (e acontecem) em Moçambique, e em outras partes do mundo, sublinham a necessidade de os estudiosos da agricultura, biologia, ambiente, nutrição, etc. explorarem e tirar o máximo de proveito da biodiversidade local, em vez de forçar o que é alheio, a custa da liquidação do que é local.

A ausência desses estudos faz com que de mais de 80.000 espécies de planta conhecidas que podem servir para a alimentação, a dieta humana não usa mais de 150 espécies. E a FAO diz destas 150, 12 alimentam ¾ da população mundial. No mesmo diapasão muitas espécies vegetais que podiam ser parte da alimentação humana foram exterminadas como indesejadas.

A combinação do conhecimento local com o conhecimento universal aliados ao entendimento e importância da biodiversidade local pode levar a uma transformação radical da agricultura que permita não só melhorar as condições da vida da população do Pais, mas também produzir conhecimentos e bens agrícolas inovados com capacidade de penetrar e sobreviver o modelo de globalização de economia. Não é imitando os outros que se pode ganhar a competitividade no mercado mundial. É com exclusividade.

Na trajectória de exploração desses recursos (conhecimento e biodiversidade), as tecnologias a adoptar deveriam primeiramente facilitar a substituição de factores escassos e caros por factores mais abundantes e mais baratos para a economia e para os produtores agrícolas. As tecnologias economizadoras de terra e de mão-de-obra deveriam tomar a dianteira tomando como ponto de partida aquelas já usadas pelos camponeses.

Uma das fazes da grande revolução agrícola no Ocidente operou-se com a introdução da tracção animal para a agricultura, que não só economizou a mão-de-obra como também permitiu trabalhar uma maior profundidade de lavoura, melhorando o acesso aos nutrientes e água para as plantas. Nos dias de hoje, para além da tracção animal existem outras opções simples e relativamente acessíveis de equipamentos semi-motorizados que podem ser adaptados para o efeito, sempre tomando em consideração os sistemas agrícolas locais, necessidades de energia e aspectos de manutenção.

A exploração da biodiversidade local deve levar os estudiosos acadêmicos a combinar o seu saber com o dos agricultores para transformar o que se considera como plantas silvestres, em alimentos, matérias primas para indústria, medicina, energia, etc. Alguns trabalhos tímidos já estão a acontecer, mas com pouco espaço para prosperarem. As iniciativas em curso de estudos médicos e nutricionais de plantas da biodiversidade Moçambicana devem ser encorajadas, instituídas e financiadas para enriquecer a Agro biodiversidade do País.

O sector privado já iniciou timidamente processos de industrialização de frutos de algumas dessas plantas, o que mostra a existência de oportunidade de “casamento” entre ciência, tecnologia e mercado. Com este “casamento” pode se abrir horizontes muitos mais largos para a agricultura Moçambicana.

Conscientes de que o modelo de exploração de recursos não pode ser sustentado eternamente, este, deve ser reforçado por processos que considerem formas de acesso e utilização de fontes de crescimento sustentável. Essas fontes podem incluir, entre outros, melhoramentos fundiários, irrigação pelo menos suplementar, tecnologias de gestão pós colheita, processamento para acrescentar valor, intensificação de sistemas integrados de agricultura, permacultura, pecuária, pecuarização, etc. As transformações que advenham deste processo poderão representar um ponto de partida, mas não um processo acabado.

A capacidade de o País alcançar um crescimento rápido de produtividade e de produção agrícola vai depender das escolhas e trajetórias que se fizerem ou que se fazem.  A ênfase e a eficiência que se dá a cada uma das escolhas e trajectórias depende das regiões agroecológicas, das restrições e das práticas no maneio dos sistemas.  Onde as restrições advêm da oferta inelástica da terra, a tecnologia biológica pode tomar a dianteira, enquanto onde a grande limitação for imposta pela oferta inelástica da mão-de-obra, a tecnologia mecânica pode se tornar a trajectória de liderança. Onde as condições edáficas e climáticas não permitem o desenvolvimento de certas culturas ou certos animais, as plantas e os animais locais devem ter atenção especial na permacultura e pecuarização.

Para a melhor escolha das trajectorias a seguir será preciso uma aliança triangular entre a investigação, educação e planificação. E no centro do triângulo deve estar o homem e não a obsessão da competitividade, pois esta só ganha espaço com inteligências e acção do homem.

Muitos defendem e defenderão a ideia de que não é necessário inventar a roda, pois existem pacotes tecnológicos abundantes desenvolvidos em outras partes do mundo que podem ser aplicados ou adaptados a Moçambique, e que por isso não há necessidade de novas investigações e nem reformas curriculares radicais. Este postulado não passa de meia verdade, e a meia verdade pode ser falsa.

Há um ditado popular africano que diz “Manda o rapaz aonde ele quer ir e verás o passo dele”Por outras palavras: se se orientar os produtores agrários de Moçambique para trajetórias incertas e com recados confusos, que se espere um atraso grande, e o recado pode chegar desvirtuado com resultados não desejados.  

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